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Um novo eu para ser eu de novo

Sempre estou adiando as coisas, deixando tudo pra depois. Esperando que, quando isso ou aquilo acontecer, aí sim mudarei a minha vida, meus hábitos, serei mais saudável, farei ginástica, yoga, tomarei finalmente essa e aquela decisão.
Assim vou seguindo infeliz e agindo mal comigo mesma, apresentando mil e uma desculpas para justificar e mascarar a minha covardia, a minha estagnação. Quero, desejo muitas coisas, mas não estou cuidando do catalisador dessas mudanças: eu mesma. Continuo andando às cegas, tateando no escuro em busca de uma coisa mágica que transforme a minha vida de fora para dentro.

Não vivo o real, porque estou presa a ilusões. Estou vivendo num mundo ideal que criei como resposta às minhas dores e ao que minha auto-piedade acredita ser direito legítimo. Afinal, não é possível que a coitadinha de mim não mereça tudo, depois de tanto sofrimento.

Agora, decido sair do estado de hipnose e auto-engano em que me encontro. “Voltar pra casa”. Fiquei fora muito tempo; ela está suja, empoeirada, com rachaduras e teias de aranha, mas é a minha casa: EU. Preciso remover e limpar a sujeira, o ódio, a raiva, a mágoa, o sentimento de fracasso e a culpa; tirar os entulhos que guardo há tanto tempo e aos quais tanto me apeguei; ofensas, traições, cartas antigas, lembranças dolorosas; vedar as rachaduras, curar as feridas, abrir as portas e janelas para o novo, sem tratar isso como algo desconhecido, surpreendente. Simplesmente fazer o que precisa ser feito.
NOVO, palavra originada do latim novu que, pasmem, tem também como definição: o que ainda não serviu ou tem pouco uso; repetido, ignorado, renovado. Quero abandonar a crença de que somente quando encher minha casa de visitas, coisas, realizações, entulhos novos ou novos entulhos, é que ela será perfeita.

Satisfazer as necessidades pessoais é mais difícil do que satisfazer as necessidades das outras pessoas, exatamente porque somos exigentes demais conosco. Por isso olhamos tanto para fora, para os outros, para não ouvir nossa própria voz. Acumulamos tarefas e obrigações para despistarmos o chamado do nosso interior, como quem aumenta o volume da música para não ouvir a voz do vizinho que está brigando. Dói olhar para si. Soa como perda de tempo ou como quem não tem o que fazer.

Enquanto escrevo, e sei o quanto isso está me inquietando, minha mente me diz:
“Ei moça, você precisa colocar o feijão no fogo”.
O almoço, as ligações, as obrigações. Mas tudo o que eu queria era ficar aqui e escutar meu coração me dizer o que ele quer. Largar tudo e ir à praia, quem sabe? Deitar na rede e ler um livro de piadas, talvez. Ou dar a mão à minha criança interior para um passeio, um reencontro que ela há tanto anseia, para me contar tudo sobre minha vida, dos últimos tempos em que estive fora.

Aline Lima