Podcast 15 – TREINANDO O JOGO DA INOCÊNCIA 1ª parte

Por:Julio Machado
Podcast

27

ago 2016

 

Jogar o jogo da inocência é fazer um jogo do bem. O treinamento consiste em cada um procurar o maior número de motivos para conferir inocência ao outro. Não seria assim que se constrói um paraíso? Tal qual aquela lenda judaica onde as pessoas no inferno estavam desesperadas porque tentavam se alimentar usando colheres tão compridas que não alcançavam as próprias bocas, enquanto os integrantes do Céu eram felizes porque usavam as mesmas colheres para darem comida uns aos outros.

Creio que Francisco de Assis, ficaria bem satisfeito conosco se introduzíssemos mais uma estrofe na sua famosa oração: “é perdoando que se é perdoado… é compreendendo que se é compreendido”… é inocentando que se é inocentado.

Rubem Alves, um sábio educador e escritor, escreveu uma interessante crônica onde  ele compara os relacionamentos humanos com os jogos de pingue-pong e frescobol. No pingue-pongue você joga a bolinha para provocar o erro do outro, enquanto no frescobol você joga a bola de modo a facilitar o acerto do outro. O frescobol  é o jogo do “ganha-ganha” e o pingue-pongue é o jogo do “perde-ganha”. No frescobol, que é um jogo de praia com raquetes de madeira, os parceiros procuram manter ao máximo a bola suspensa. Se o outro mandar a bola meio torta para você, você não piora o erro, não desconta, ao contrário, você corrige o erro e tenta mandar uma bola boa para ele.

O jogo da inocência é como um jogo de frescobol, um jogo onde todos ganham, mesmo quando, aparentemente, não dá certo. Este é o convite que estamos fazendo desde o podcast número 12 quando propomos que a saída é pelo outro lado.

Por que temos essa enorme necessidade de preservar a nossa inocência? Porque sabemos, mesmo inconscientemente, que no fundo, no fundo temos uma inocência original, que vem antes de qualquer pecado. Apesar dos males, dos erros e de toda a nossa imperfeição, não queremos ser julgados..

Jogar esse jogo da inocência é ter a capacidade de compreender que errar faz parte da nossa humanidade. Você pode corrigir, pode mostrar outro caminho, mas em nenhuma hipótese pode condenar uma pessoa, dizendo que ela é má ou que ela não presta. Nós não podemos tocar no “eu sou” de um ser humano.

A correção dos erros não passa pela punição e sim pela educação. O perdão evita que condenemos uns aos outros, enquanto a educação procura extrair da pessoa o seu melhor, mesmo que precise aparar algumas arestas. Uma pessoa perdoa por acreditar que ninguém erra por mal, mas sim por ignorância. Assim sendo tem a convicção de que mesmo o criminoso mais bárbaro pode ser ajudado a se corrigir, através de um sistema prisional mais humanizado.

Certa vez ouvi a estória de uma tribo africana que canta uma canção diferente para cada criança no momento do seu nascimento. Esta passa a ser a canção daquela pessoa. Esta canção é novamente cantada em ocasiões bem marcantes como na passagem da puberdade, no casamento e, finalmente, no seu funeral. Mas também cantam essa canção quando algum membro da tribo procede mal ou causa algum prejuízo para a comunidade. Eles se reúnem em torno do malfeitor e não lançam pedras, mas entoam a sua canção original. Os companheiros cantam a sua canção para ele se lembrar de quem ele é. A tribo entende que o fato de alguém agir mal significa que ele desviou-se do caminho e está meio perdido. Saiu por uma tangente e deu no que deu, mas ele pode voltar e a canção faz esse convite. 

Garantir ao outro a chance de voltar para o caminho da vida é também garantir o mesmo para nós, pois quem esta livre de cometer algum desvio? Quem pode dizer que dessa água não beberei?

 

 

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