Podcast 46 – PRECISAMOS DE MENOS RAZÃO E MAIS CONSCIÊNCIA

Por:Julio Machado
Podcast

29

jun 2018

 

Vamos dar continuidade à reflexão sobre razão e consciência. Como é uma questão de conceitos vamos dar algumas referências do que entendemos por um e por outro.

Quando falamos de razão estamos nos referindo a um posicionamento individual que, normalmente, se contrapõe à razão de um outro indivíduo. Razões são muitas, como afirma o preceito: cada cabeça uma sentença.

Quando somos convidados a ter consciência estamos nos referindo agora a um novo posicionamento, onde o mais importante não é o que eu penso, mas sim o que é o melhor para todos.

Enquanto a razão é múltipla a consciência é uma só. Existem muitas razões, mas uma só consciência. Por isso entendemos que a consciência está mais próxima da verdade que também é uma só. Desta forma, o nosso esforço deve ser no sentido de buscar essa consciência que unifica, que cuida do que é comum e não apenas de uma parte. Enquanto a razão cuida do que é pessoal a consciência cuida do universal.

A razão, por ser medrosa e insegura, quer salvar o nosso pedaço, enquanto a consciência, que põe fé na ação amorosa, se preocupa com o todo. A razão é imediatista quer ganhar agora e já, enquanto a consciência, por não se importar em ceder, pode parecer que está perdendo. Mas só o tempo dirá quem ganhou de verdade. A razão diz: é dando que se perde, enquanto a consciência é convicta de que é dando que se recebe.

Vejamos alguns exemplos de como lidamos com a razão e a consciência no nosso dia a dia: um fazendeiro quer desmatar uma parte do seu terreno para plantar. A lei lhe dá o direito de fazê-lo em 20% da sua propriedade.  Enquanto escolhe o melhor lugar para o desmatamento, ele percebe que numa área próxima à divisa existem algumas árvores que poderão lhe render algum dinheiro, enquanto nas outras áreas só tem mato. Neste caso ele opta pela vantagem da área na divisa e começa a desmatar. Tão logo os empregados adentram aquela área eles se deparam com uma nascente, meio escondida, que alimenta um pequeno lago da fazenda vizinha. E agora o dilema: continua o desmatamento desta área mais vantajosa, resguardado pelo seu direito legal, ou interrompe o desmatamento da divisa para proteger a água do vizinho. A razão normalmente diz: deixa de ser besta, você está no seu direito. Afinal não é o vizinho que paga as suas contas. Você vai se prejudicar para beneficiar os outros?

E a voz da consciência, o que você acha que ela diz?

Certamente a razão se contrapõe à consciência, argumentando que para o outro ganhar ele irá perder. Será que o prejuízo da fazenda vizinha também não o afetaria a médio prazo? E se aceitar esta aparente perda que a consciência lhe propõe, a fim de beneficiar o seu vizinho, isso não lhe retornará multiplicado num futuro bem próximo? Quando o vizinho, por exemplo, souber do seu gesto de consciência que o beneficiou, provavelmente se empenhará em demonstrar a sua gratidão lhe retribuindo de alguma forma.

O que você acha? Onde você apostaria as suas fichas? Nos argumentos da razão ou no altruísmo da consciência.

Um outro exemplo é o do aluno que durante uma aula de história levantou-se da carteira, enquanto o professor explicava a matéria dirigindo-se até a região da lixeira a fim de limpar a sua borracha na parede. O professor interrompeu o que dizia e a sala toda parou o que estava fazendo para observar o colega limpar a borracha. Quando este voltou, o professor questionou –o:

– Você percebeu o efeito da sua ação?  Aí o aluno explicou seus motivos dizendo que a próxima aula era de matemática e que o professor era mais severo e não permitiria limpar a borracha durante sua aula.  O professor disse que ele tinha muita razão, mas, pouca consciência, pois afetou toda a sala para cuidar do seus interesses.

A razão costuma dar mais ibope que a consciência. Ela nos protege, nos defende, nos justifica. Quanto mais inseguros somos, mais utilizamos a razão. Mais queremos salvar a nossa pele, defender o nosso lado. Aliás, não é isso que a sociedade mais ensina?  Não é assim que, de um modo geral, educamos as nossas crianças? Desde pequeno somos estimulados a salvar o nosso lado primeiro, a tirar proveito, a ser esperto, a levar vantagem em tudo, a pensar no ganho imediato. O famoso jeitinho brasileiro… Quando utilizamos um pouco mais a nossa consciência a fim de cuidar do que é de todos, somos até taxados de bobos, de fracos. Simplesmente porque nos importamos com o que é do outro, por que demos alguma coisa primeiro, sem receber, imediatamente, algo em troca.

Veja aquele operário de uma fábrica que nos contou que era objeto de zombaria por parte dos colegas quando, às vezes, fechava uma torneira que os outros deixavam pingando. Diziam que não era sua obrigação, que ele era bobo em fazer aquilo, que era puxa-saco da empresa. Questionavam: o que você ganha com isso?

Mesmo assim, ele continuava fechando a torneira para diminui o barro no chão. Não é uma questão de ter razão, mas sim, de ter consciência. Ele nos disse que, algumas vezes, enquanto fechava a torneira, também pensava, não só em evitar o desperdício na água, mas no pequeno aumento da pressão nos canos que poderia ajudar a encher alguma caixa-d’água de um prédio vizinho.

Esta é uma das características da consciência: a certeza de que a minha ação ou a minha omissão, reflete no todo. Como uma pedra que cai num lago. Por menor que ela seja ela cria uma vibração em forma de ondas que viajam por todo o lago, indo e vindo.

Por que as pessoas então não agem mais com a consciência?

Porque aprendemos que o ganho imediato é o que mais interessa .  E a razão favorece isto. Não fomos ensinados a enxergar mais adiante para ver que o ganho da consciência é muito maior do que o ganho da razão. Com a razão eu ganho na parte, com a consciência eu ganho no todo. Quando utilizo a razão, normalmente estou separado, sozinho. Quando utilizo a consciência, ou melhor, quando me conecto à consciência, entro em comunhão com a consciência de todos que também estão conectados, ou seja, com a consciência do universo. Desta forma, nunca estou sozinho. Faço parte da grande conspiração universal.

 

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