Podcast 58 – CRIANÇA: CIDADÃ OU CONSUMISTA?

Por:Julio Machado
Podcast

13

dez 2021

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Esta semana vou basear a nossa reflexão num artigo do Frei Beto, escrito para a folha Brasiliense, em outubro do ano passado, na véspera do dia das crianças.

Ele propunha que aquele era um bom momento para se refletir sobre o que temos feito a respeito da educação dos nossos meninos e meninas. Estamos formando futuros cidadãos ou consumistas? Pesquisas indicam que as crianças brasileiras costumam passar quatro horas por dia na escola e o dobro do tempo de olho na TV. Impressiona o número de peças publicitárias

destinadas a crianças ou que as utilizam como isca para o consumo.

A pesquisadora Susan Linn, da Universidade de Harvard, constatou que o excesso de publicidade causa nas crianças distúrbios comportamentais e maus hábitos alimentares. As consequências vão desde a obesidade precoce, pela ingestão de alimentos ricos em açúcares ou gorduras saturadas, como a anorexia provocada pela obsessão em ficar magra como as modelos da passarela da moda.

Sexualidade precoce e desajustes familiares são outros efeitos da excessiva exposição à publicidade. São menos felizes as crianças influenciadas pelas ideias de que sexo é um encontro casual que independe de amar e conhecer a pessoa com quem nos relacionamos; que a estética do corpo é mais importante do que os sentimentos; e que a felicidade reside na posse de bens materiais. Aliás esta seria uma boa receita para se formar uma pessoa deprimida e doente.

Impregnada desses falsos valores, tão divulgados como absolutos, a criança exacerba suas expectativas. Se uma criança associa a sua felicidade ao fato de possuir bens materiais e a ter um corpo escultural, tanto maior será sua frustração e infelicidade, seja pela impossibilidade de saciar seu desejo, seja pela incapacidade de cultivar sua autoestima a partir de valores humanos e subjetivos. Assim começa-se a formação mais de um ter humano massificado do que um ser humano auto realizado.  A criança se torna uma séria candidata a ser rebelde, geniosa, impositiva e indisciplinada, tanto em caso como na escola.

A avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade. Não importa quem seja a pessoa- feia ou bonita, estudada ou analfabeta. Se comprar os objetos cobiçados, é automaticamente alçada ao altar dos invejáveis. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que ela carrega.

A praga do consumismo é, hoje, também uma questão ambiental e política. Montanhas de plástico se acumulam nos oceanos e a exacerbação do desejo de possuir coisas dificulta cada vez mais uma sociedade sustentável, na qual os bens da Terra e os frutos do trabalho humano sejam partilhados entre todos.

Um dos fatores de deformação na educação das crianças é a desagregação do núcleo familiar. No Dia dos Pais um garoto escreveu um bilhete ao pai suplicando-lhe que desse a ele tanta atenção quanto o pai dedicava à TV. Um outro filho de pais separados pediu para morar com os avós após presenciar a discussão dos pais  que brigavam para se verem livres dele no fim de semana.

É preocupante o orgulho de pais que exibem seus filhos em concursos de beleza. Uma criança instigada a, precocemente, prestar demasiada atenção ao próprio corpo, tende à esquizofrenia de ser biologicamente infantil e psicologicamente “adulta”. Encurta-se, assim, seu tempo de infância. A fantasia, própria da idade, é transferida à TV e ao apelo de consumo. Não surpreende, pois, que, na adolescência, o vazio do coração leve o jovem a buscar compensação na ingestão de drogas.

Crianças são seres miméticos por natureza, imitam tudo o que observam. A melhor maneira de interessar um bebê em música é colocá-lo na companhia de alguém que tenha familiaridade com um instrumento musical. Ora, o que esperar de um a criança que presencia os pais humilharem a faxineira, tratarem garçons com prepotência, xingarem motoristas no trânsito, jogarem lixo na rua, passarem a noite se deliciando com futilidades televisivas?

Crianças precisam de afeto, de sentirem-se valorizadas e acolhidas, mas também de disciplina e, ao romper o código de conduta, precisam ser punidas sem violência física ou verbal. Só assim aprenderão a conhecer os próprios limites e a respeitar os direitos do outro. Só assim evitarão tornar-se um adulto invejoso, competitivo e rancoroso.

Se você adora passear com seu filho em shoppings, não estranhe se, no futuro, ele se tornar um adulto ressentido por não possuir tantos bens de consumo. Se você, porém, incutir nele apreço aos bens espirituais, como — generosidade, solidariedade, gentileza — ele se tornará uma pessoa feliz e, quando adulto, será seu companheiro de amizade, e não o eterno filho-problema a lhe causar tanta aflição. Procurar os meios para aprender a educar as crianças é um ato de amor.

 

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